Na nossa história, a primeira coisa a chegar de Torenza não foi uma pessoa. Foi uma palavra. Ele permaneceu nas telas depois que o vídeo terminou, como uma música cuja última linha você não consegue lembrar.
Do outro lado, numa biblioteca em Elaris, Mara estava consertando um rádio que só tocava estática. Ela não ouvia o farol há semanas. Naquela noite, entre dois estalos, ela captou uma pergunta.
"De onde você é?"
Mara girou o botão. A mesma pergunta. Cinco vezes. Depois uma voz, muito baixa: “Não consigo encontrar o meu país”.
Ela abriu o atlas. Os portos estavam lá. As montanhas. Cada rota entre as ilhas. Na última página, seu avô havia deixado um bilhete: Um mapa sabe onde as coisas estão. Nunca se sabe quem está faltando.
Mara deixou o rádio ligado. Pela primeira vez, ela parou de procurar uma frequência. Ela tentou responder.
O sinal viajou por Torenza. Em Elaris, alguém trouxe uma cadeira extra para a praça. Em Auren, uma padeira deixou a janela aberta muito depois do fim do dia.
Em Valtor, acenderam uma lâmpada numa cabana que estava vazia há anos. Em Nerath, alguém escreveu uma pergunta na parede da biblioteca: “O que você faria se encontrasse alguém que entendesse?” De Kael, enviaram uma garrafa ao mar sem pedir que voltasse.
Mara anotou as cinco respostas. Nenhum deles disse onde estava Torenza. Todos eles disseram a mesma coisa de uma maneira diferente.
“Venha como você está.”
Então o rádio mudou. Não era mais uma voz. Eram centenas de pequenos sons: uma risada, uma chave, passos na neve, uma xícara encontrando seu lugar na mesa.
Não eram pedidos de resgate. Eram pessoas imaginando onde queriam estar.
Mara subiu cento e sete degraus com o rádio debaixo do braço. No topo não havia lâmpada. Havia uma mesa. Sobre a mesa, um livro de chegadas. A primeira linha dizia:
"Ninguém precisa provar que pertence. Apenas escolha ficar."
Abaixo estavam nomes de todas as regiões. Alguns eram apelidos. Outros tinham pequenos desenhos ao lado. Ao lado de cada nome havia outro: alguém para quem aquela pessoa havia aberto espaço.
Mara entendeu por que o farol estava silencioso. Estava esperando pela próxima mensagem. Uma pessoa não conseguiu escrever. Torenza teve que escolher o que dizer às pessoas que ainda procuravam.
Ela conectou o rádio. Abri o livro em uma página em branco. Puxou uma cadeira.
E desta vez, quando alguém perguntou onde estava Torenza, ela não deu o endereço.